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Do Labirinto à Ad Urbem Imprimir E-mail

Fernando Gonçalves

Logótipo: símbolo, ícone ou sinal gráfico que representa uma marca,
uma empresa ou um produto, traduzindo suas características.
SAO Informática, Dicionário WEB

O labirinto de Creta foi a imagem escolhida para logótipo da Ad Urbem. À primeira vista, haverá quem nele leia uma velada alusão ao enredo labiríntico das leis que regem o urbanismo e a construção. Tal leitura não é de descartar, mas, se bem repararmos, o logótipo não sugere um espaço perturbador e asfixiante, concebido para servir de esconderijo ao tenebroso Minotauro. Pelo contrário, em vez de suscitar temor, as circunvalações descritas pelo caminho que conduz ao centro do labirinto embalam o nosso olhar num ritmo encantatório. A ameaça de um monstro que quer dilacerar-nos – alegoria da lei injusta, disposta a servir uma burocracia despótica – não é suficiente para contrariar nosso desejo de desvendar um lugar que o rei Minos, à força de quer manter secreto, dá a entender aí esconder os frutos mais apetecidos. Aliás, não é por acaso que o centro do labirinto está em Cnossos, uma palavra que recorda a raiz do nosso conhecimento... 

Estáter de Cnossos, c. 350-200 a.C.

Para tornar ainda mais tentadora a demanda do centro do labirinto, o mito dá a Minotauro o etéreo nome de Astério, um céu estrelado que não é possível encerrar num antro cavernoso, mas cujo brilho cintilante é capaz de iluminar um terreiro de dança. Aliás, foi Homero que disse:

 - Um piso para a dança cinzelou o famoso deus ambidestro (1)
 - semelhante àquele que outrora na ampla Cnossos
 - Dédalo concebeu para Ariadne de belas tranças. (2)

Estáter de Cnossos, c. 330-300 a.C.


Assim, o desenho do labirinto de Creta, enquanto alegoria do texto legal, é passível de uma dupla leitura. Para os que não sabem interpretar a lei, o linguajar jurídico assemelha-se a um circuito infindável de sentenças cujo único propósito aparenta ser o de tolher a nossa liberdade cívica. Mas para os que conhecem a lei, sabem que ela constitui um instrumento insubstituível para assegurar a harmonia que deve presidir às relações actuantes no seio de uma cidade norteada pelo sentido de urbanidade.

A tarefa da Ad Urbem é precisamente a de desvendar, perante todos os cidadãos, a face luminosa do labirinto, contando, para isso, com o contributo e a cooperação dos técnicos que trabalham quer na feitura das leis do urbanismo, retratados na figura do rei Minos (3), quer na aplicação prática dos regimes jurídicos que disciplinam a construção da cidade, simbolizados por Dédalo, paradigma dos arquitectos e dos inventores (4).

Giotto, Dédalo evadindo-se do Labirinto
Museu da Fábrica da Catedral, Florença

 
As relações entre aqueles que constroem a lei e os que edificam a cidade nem sempre são pacíficas. Na parte final do mito, Minos encerra Dédalo no labirinto, mas este escapa à prisão por ele imaginada, inventando um par de asas e elevando-se nos ares. O rei de Creta lança-se em perseguição do arquitecto e, depois de um longo périplo, vem a morrer no palácio de Cocalos, rei da Sicília e o derradeiro protector de Dédalo (5). Mas não se pense que este teve a última palavra. Após a morte de Minos, Zeus colocou-o à entrada do reino dos mortos, confiando ao seu filho o julgamento daqueles que abandonam a companhia dos vivos. Por aí também passou o espectro do arquitecto, que hoje apenas sobrevive devido à fama imorredoura da sua obra...

Ao labirinto de Creta está também associado o nome de Ariadne, filha de Minos e amante de Teseu, o herói que matou o Minotauro e fundou a democracia ateniense. O fio de Ariadne pode ser visto como um guia capaz de nos salvar dos alçapões escondidos nas entrelinhas da lei... Mas também neste ponto o mito é ambíguo. Há quem suspeite que o fio não se destina a trazer Teseu de volta, mas sim a libertar Minotauro, pois é o monstro quem Ariadne verdadeiramente ama (6).

Este último aviso alerta-nos para a necessidade de superar a ambiguidade do pensamento mítico e relembra-nos que a face luminosa do labirinto só se nos revela se da lei soubermos extrair a medida justa, a iusta ratio, destinada a regular os conflitos sociais e a sustentar o desenvolvimento da cidade. Desta subtil tarefa dependa a nossa sobrevivência colectiva. Daí a divisa escolhida para a Ad Urbem:

IUSTA LEX URBEM AUGET
A lei justa faz crescer a cidade

25 de Fevereiro de 2007

(1) O deus ambidestro é Hefesto, o “famoso artífice” que fabricou o escudo de Aquiles.
(2) Ilíada, Canto XVIII, 590-592, na versão de Frederico Lourenço (Lisboa, Livros Cotovia, 2003).
(3) Filho de Zeus, personificação da justiça, e de Europa, Minos foi o arquétipo do legislador da cidade-estado grega e inspirador da Constituição de Esparta, a “Grande Lei” anunciada pelo oráculo de Delfos e concretizada por Licurgo (c. 650 a.C.).
(4) Dédalo, o brilhante “artífice habilidoso”, era admirado não apenas pelo Labirinto de Creta, mas também pela construção de autómatos que imitavam seres animados.
(5) O palácio de Cocalos, o primeiro rei da Sicília, situava-se em Camicos, hoje identificada com Agrigento.
(6) Esta suspeita não casa bem com Ariadne, a “mais pura”, salvo se entendermos que esse nome significa “aranha”.

 
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